
Push Barman To Open Old Wounds
Isto de canções da nossa vida, tem muito que se lhe diga. Porque no dia em que morremos, nessa longa capa invisível que levamos, alguns discos têm direito a uma etiquetazinha, outros conseguem até um bordado mas são poucos os que se vêem em A3. Adiante…
Os Belle & Sebastian fizeram If You’re Feeling Sinister (bordado), Tiger Milk (bordado) e The Boy With The Arab Strap (etiquetazinha) mas, entretanto, iam fazendo Push Barman To Open Old Wounds (A3).
E aqui eles são Simon And Garfunkel, eles são Smiths, eles são Suede e, tantas vezes, eles chegam até a ser Jeff Buckley ou Enio Morricone. Dog On Wheels é acelerada como os pneus, estranha como o nome, viciante como nenhuma outra. O truque é imaginar as esporas das botas do Clint n’O Bom, O Mau e O Vilão e vibrar, porque a canção é muito western.
The State I Am in diz “O meu irmão contou que era gay e isso afectou-me por uns tempos. Depois, ficou com o amigo marinheiro que conheceu no dia do casamento da nossa irmã. Eu casei à pressa para ajudar uma miúda a não ser deportada, agora ela está apaixonada.” e a canção com o nome da banda é uma canção de embalar, que vai crescendo até nos embevecer, como um sobrinho mais novo.
Agora vamos abrir novo parágrafo, porque também o disco salta para outro patamar. Lazy Line Painter Jane é do melhor que a banda criou. Tem o ar querido e flower power da banda mas também muda a perspectiva, ao falar na primeira e segunda pessoa, em vez de se limitar a contar uma pequena estória. É também o mais perto de algo épico, no primeiro cd, e a canção onde melhor estão Stuart Murdoch e Isobel Campbell, em conjunto. É uma canção arrebatadora.
1, 2, 3, 4 canções maravilhosas de uma só vez. Photo Jenny (idílica), Century of Fakers (canção de protesto), La Pastie De La Bourgeoisie (como referências a On The Road de Kerouac) e Beautiful (uma estória estranha, numa cantiga pura).
O Primeiro disco é brilhante. Não me posso alongar sobre ele porque existem ainda as canções do segundo disco, que não são perfeitas como as do primeiro e por isso se tornarão, para todos vocês, tão especiais:
Vou passar a primeira canção porque dela só falarei mais adiante. I Know Where The Summer Goês, The Gate e Slow Graffiti são 3 queixumes, todos eles bem cantados, bem compostos, bem Belle & Sebastian.
Passemos agora a outra dimensão: a das canções-cheias-de-defeitos-que-só-se-podem-amar.
Jonathan David: quem a canta é o Steve e a sua voz falha, não entoa bem todas as palavras e não puxa por ela. Quando tenta forçar uma nota que não é sua, fica ridículo. O Stuart entra a fazer coros horríveis e o piano parece algo extraído de um Monty Python. Por isso é que é tão estúpido que esta canção cresça em nós como poucas. Não sei como consegue. Mas consegue.
Take Your Carriage Clock And Shove It: Ponto 1, a introdução parece The Verve. Ponto 2, a melodia não conjuga com a letra. Ponto 3, o homem diz asneiras numa música triste (que não é depressiva). Ponto 4, se conhece a canção e não a adora assolapadamente, envie-me um mail para
harvesterofhearts@hotmail.com. Prosseguindo, sem mails…
I’m Waking Up To Us: uma cantiga fenomenal. Uma letra absurdamente fenomenal. O sotaque escocês lindo, a entoação na ponte dos versos. O verso “Eu nunca a quis chatear, apenas queria que ela visse a beleza do mundo que a rodeia” é de partir o coração. Existem por aí cantigas que não cansam…
I Love My Car: spots publicitários em programas sobre motores de automóveis. Audições em enormes colunas meia-hora antes dos prémios de fórmula um. Aquele ar de “hey, Marylin, entra no meu descapotável e vamos de lenço com bolinhas rosa na cabeça, beber um Chateaux Vincenne e comer paté, para um monte qualquer”. Não existe nenhuma banda no mundo que arriscasse uma canção parecida.
Marx & Engels: Canção comunista. Disso não restam dúvidas. Genial é escrever uma canção que junte ideologia política, crítica societal, uma estória querida com uma rapariga estrangeira que se encontra na lavandaria.
This Is Just A Modern Rock Song: Há algo neste tema, maior que a própria vida. Tenho tentado perceber as razões que me levam a idolatrar esta canção a níveis quase indesejados. Talvez seja pelo termo Just, redutor porque a canção é enorme, redutor porque ela é épica (à sua maneira), redutor porque parece querer dizer "isto é apenas uma canção, na nossa apenas vida, no nosso apenas lazer, que afecta os nossos apenas sentimentos. Talvez a ame porque se gastou um tema perfeito instrumentalmente a descrever relações sociais. Talvez a ame por dois versos absolutamente irresistíveis, "I'm only lucid when I'm writing songs" e "I count three and four and we start to slow/because this song has got to stop somewhere".Talvez adore a canção porque é triste, como tudo na vida parece triste de quando em vez. Talvez porque é apenas melancólica, não tenta ser depressiva nem devastadora. Talvez porque quando a voz do Stevie e do Stuart cantam em conjunto, a nossa alma paira e só regressamos quando alguém nos lembra que a vida existe para além da melancolia, do arrependimento, do passado e da ausência daqueles que amamos do fundo do coração.
Há letras e letras. Há melodias e melodias. Há discos e discos…
Pedro Barbosa