The queen is dead, mas a gente não
Dando continuidade aos festejos de vinte anos do "The queen is dead", chegou a minha vez de deitar algumas linhas sobre o disco, mesmo que eu não o ouça mais.
Explico: durante cinco anos, os Smiths tiveram o estatuto de minha banda favorita; devo ter decorado as letras de setenta por cento de suas canções, a ordem de lançamento dos compactos, passei até mesmo dez meses sem comer carne por influência do topetudo Morrissey (embora o Johnny Marr também seja vegetariano). Comprei o "The queen is dead" no dia em que completei dezoito anos, em novembro de 1999.
Quando cheguei em casa, descobri que estava diante de uma maravilha. Até então, meu conhecimento dos Smiths restringia-se aos dois volumes do "Best..." editados no Brasil. Por sorte ou algo assim, reeditaram-se o "Hatful of hollow" e o "The queen is dead" dois anos antes.
Enfim, aquilo foi como um soco no estômago. E detonou uma Smithsmania pessoal. Uma banda não lança um disco desses e fica impune, certo? A partir daí, comprei todo o catálogo dos Smiths e do Morrissey a solo, fui a um concerto dele em 2000, enfim... a rainha estava morta, mas a minha vida parecia ali ter começado.
"Cemetry gates" é um delicioso exercício de humor persecutório; "The boy with the thorn in his side" tem as guitarras mais bonitas da década, ao lado de "Lips like sugar", do Echo & the Bunnymen; "Never had no one ever" traz aquela letra tão misteriosa: afinal, há algum significado nos 20 anos, 7 meses e 27 dias? "I know it's over" é o drama e a inadequação elevados ao estatuto de arte. E ainda há "There is a light that never goes out", com um vocal tão sublime que fica difícil crer que foi feito em apenas duas tomadas.
Uma vez, um amigo aqui de Brasília, que passou a gostar mais dos Smiths depois que chamei-lhe a atenção para a obra da banda, disse-me que "The queen is dead" era, a seu ver, um disco semi-conceitual sobre a morte, e que só não havia encontrado indícios sobre a morte em dois temas: "Some girls are bigger than others" e "Frankly mr. Shankly" (que traz o sensacional verso "you are a flatulent pain in the arse").
E eu concordo com ele. Apesar de não ser um trabalho conceitual como "Strangeways here we come", sobre o amor (o disco começa dizendo "I think I'm in love" e termina com "Goodbye my love" - que prova melhor teríamos?), nem por isso "The queen is dead" deixa de ser um trabalho apaixonante. Já se vão vinte anos de corações partidos... e que venham mais vinte, trinta ou enquanto o bom gosto perdurar.
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