The Smiths
The Queen Is Dead (1986 - 2006)
Mãe, eu consigo senti-lo.
O chão parece cair-me em cima.
E enquanto me arrasto até esta cama vazia...
Bem, chega de conversa.
Porque eu sei que tudo acaba aqui,
embora não o aceite.
Não sei mais para onde ir,
acabou.
O chão parece cair-me em cima.
E enquanto me arrasto até esta cama vazia...
Bem, chega de conversa.
Porque eu sei que tudo acaba aqui,
embora não o aceite.
Não sei mais para onde ir,
acabou.
The Queen Is Dead faz 20 anos este mês. Está de parabéns. E merece este especial por várias razões, entre as quais, duas bem importantes: é um dos melhores discos de todos os tempos e continua a soar tão bem, ou melhor, do que há duas décadas atrás.
Mãe, eu consigo sentir.
O chão, bem,
o chão parece cair-me em cima.
Vês o mar que me tenta levar?
A faca que me tenta cortar?
Julgas que me podes ajudar?
o chão parece cair-me em cima.
Vês o mar que me tenta levar?
A faca que me tenta cortar?
Julgas que me podes ajudar?
Se não conhece o disco, corra a comprar ou faça o download, como queira; o importante é que o conheça, mesmo. Se o disco faz parte da sua estante, sei também que faz parte da sua alma, das suas memórias e da sua vida. São vinte anos, com vinte razões para se amar The Queen Is Dead.
The Queen Is Dead (ou, em português, A Rainha Está Morta) é um dos mais intensos discos de sempre. Tem composições pop absolutamente perfeitas, tem temas épicos e verdadeiramente devastadores e tem paixão e raiva escritos por todo o lado. Este disco viria a influenciar todo o que se faria em Inglaterra nos anos seguintes e foram centenas de músicos a tentar algo parecido, após a edição do álbum, até hoje.
"Triste e amargurada noiva,
por favor, sê feliz.
A ti, que cuidarás dela,
dá-lhe espaço.
Por ti, por quem o amor
falou mais alto,
trata-a com carinho.
Embora ela te precise
mais do que te ama."
por favor, sê feliz.
A ti, que cuidarás dela,
dá-lhe espaço.
Por ti, por quem o amor
falou mais alto,
trata-a com carinho.
Embora ela te precise
mais do que te ama."
Os Smiths nunca soaram mal, nunca foram fúteis e as suas letras e melodias nunca foram menos de geniais. Mas The Queen Is Dead intensificaria tudo isto. No meio de Never Had No One Ever, Morrissey teve um dos seus melhores momentos da carreira, afirmando que “Eu tive um pesadelo absolutamente mau. Durou 20 anos, 7 meses e 27 dias.” Nunca ninguém descobriu que dia foi esse, que tanto marcou Moz mas esse é um dos inúmeros mistérios que rodeiam o disco e a banda. Um dos inúmeros mistérios que tornam os Smiths ainda mais importantes.
Porque eu sei que tudo acaba aqui
embora não o consiga aceitar,
não sei mais para onde ir.
Acabou,
acabou,
acabou,
acabou,
acabou.
embora não o consiga aceitar,
não sei mais para onde ir.
Acabou,
acabou,
acabou,
acabou,
acabou.
Eu sei que tudo aqui termina
mas nem sequer começou
e no entanto, no meu coração,
tudo foi tão real
que até tu me falaste e...
mas nem sequer começou
e no entanto, no meu coração,
tudo foi tão real
que até tu me falaste e...
…e tem humor negro, britânico e puro. The Queen Is Dead foi, provavelmente, o disco com mais versos que, ainda que isolados, são pedaços de genialidade efectiva. Para que constem alguns: “E se um autocarro de dois andares se despistar contra nós (fica a saber que) morrer do teu lado é uma forma paradisíaca de se morrer”; “Da idade do gelo até à idade da pedra, existiu apenas uma preocupação, que eu acabei de descobrir: algumas raparigas são maiores que outras”; “Docemente, eu estava apenas a brincar quando disse que gostaria de te esmagar todos os dentes, um a um”; “Continuo a preferir ser famoso do que moralista ou religioso”.
"Se és tão engraçado
porque estás sozinho, esta noite?
E se és tão esperto
então porque estás sozinho, esta noite?
Se és tão bem-disposto,
porque estás então sozinho, esta noite?
Se és tão bem parecido, bonito
porque dormes sozinho, esta noite?
Deixa-me adivinhar.
Esta noite é como todas as outras noites.
Por isso te deitas só, hoje como sempre."
Porém, mais do que qualquer outro disco de Smiths, este disco é para aqueles que se deitam sós, “hoje como sempre”. A voz quente de Morrissey, que parece estar sempre no fio da navalha porque embora nunca angustie, grita a toda a hora as fraquezas de todos nós, a guitarra única e indescritível de Marr e as letras de todas as canções fazem deste disco uma compilação de desesperos e desistências. Frases de profundo lamento como “Como podem eles olharem-me nos olhos e ainda assim, não me crerem?” ou “Não quero mais ir para casa, até porque nenhuma tenho” são frequentes no disco. A sonoridade madura e datada do disco torna-o ainda mais precioso, mais audível, mais companheiro de noite e de chuva e de choro.
Com as tuas vitórias e o teu charme,
enquanto eles estão nos braços
um do outro.
É tão fácil rir.
É tão simples chorar.
É preciso força para ser gentil
e agradável.
Quanto tudo acaba.
Porque acabou.
Acabou e são precisos tomates
para se ser gentil e agradável.
“É tão fácil rir. É tão simples chorar” poderiam bem ter sido as frases de promoção ao disco. Se ele é mais animado quando Viçar In A Tutu ou Frankly, Mr Shankly tocam, também consegue ser do mais devastador que existe se as opções forem Never Had No One Ever ou I Know It’s Over. O que interessa é que volvidos vinte anos, nenhum dos dois sentimentos perdeu força e nunca ninguém atingiria semelhante patamar, orquestrando estas duas emoções, ao mesmo tempo.
Morrissey, mais que nunca, repetiria frases de sofrimento como “nunca tive alguém na vida” ou “o chão parece cair-me em cima” ou ainda “Não existe uma luz ao fundo do túnel” no fim das canções, ampliando a nossa dor, esquartejando a nossa alma.
O amor é tão natural e real...
Mas não para ti, meu amor.
Não para nós, meu amor.
O amor é real, é natural mas
não esta noite, meu amor.
Não para pessoas como tu e eu,
meu amor.
Mãe, eu sinto-o.
É agora.
O chão parece cair-me em cima.
Mãe, eu sinto-o.
Eu sinto-o, mãe.
O chão,
o chão parece cair-me em cima.
Como um texto destes não depende apenas do disco e dos leitores mas também do autor, eu devo confessar que apesar da perfeição pop de There Is A Light That Never Goes Out e Some Girls Are Bigger Than Others, da sonoridade de The Boy With The Thorn In His Side ou Never Had No One Ever e do carisma de Cemetery Gates ou Bigmouth Strikes Again, nenhuma canção me toca tanto como I Know It’s Over.
I Know It’s Over é o símbolo dos amargurados, o bastião da melancolia e do desespero, a Meca dos que perderam esperança na vida. I Know It’s Over é, na minha opinião, uma das melhores composições de todos os tempos, em que tudo está perfeito: a duração da canção, a letra, o ambiente que a rodeia, a sonoridade, a voz, a guitarra, o título.
Os nossos heróis são-no porque nos identificámos com eles, porque eles dizem ou agem como nós queríamos dizer e agir. Nesse sentido, Morrissey tornou-se o meu herói quando conheci I Know It’s Over. Desde então, tenho um hábito bonito de a ouvir quando chove, com uma chávena de chá na mão. No entanto, uma canção assim serve sempre porque também faz sentido no insuportável calor dos sentimentos e ainda mais no Outono das sensações.
Os gemidos e os risos, a tristeza e a felicidade, a velocidade e a ausência desta mas, acima de tudo, o desespero e o humor fazem de The Queen Is Dead um dos melhores discos de sempre. E, a menos que se diga “God Save The Queen (Is Dead)”, não há lugar ao contraditório, no que ao disco diz respeito.
Mãe, eu sinto-o,
eu sinto-o,
eu consigo sentir.
Eu sinto que o chão me vai cair em cima,
mãe...
eu sinto.
eu sinto-o,
eu consigo sentir.
Eu sinto que o chão me vai cair em cima,
mãe...
eu sinto.
Em itálico, encontra-se a letra de I Know It's Over, traduzida cuidadosamente e mais dramatizada que literal. Julgo que Morrissey assim gostaria que fosse.
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