Terça-feira, Agosto 22, 2006

A vida tem destas coisas. Se em Avalon, Chicago, Paris (os 3 concertos míticos e místicos de Jeff) o público soubesse, por antecipação, que o homem que viam na sua frente, iria morrer…

Bem, Jeff Buckley cantava como se soubesse que tinha um curto prazo de validade. Punha tudo de si em cada som. Soltava agudos como se as cordas vocais fossem de aço e gemia, gesticulava e chorava entre canções, como se o seu mundo fosse o mundo mais triste, desesperado, desalentado. Jeff, mais intenso que o pai Tim, parecia encarnar as almas desaparecidas de Kurt Cobain, Jim Morrisson, Hendrix, Lennon, tinha um pouco de cada um.

Além disso, Jeff Buckley é uma dessas personagens larger than life, que teve um início, meio e fim. Não deu nunca espaço para decair ou estragar a sua imagem. Contam que Jeff gostava de abrir e beber umas boas garrafa de vinho tinto e quando se tem Lilac Wine no repertório, a coisa ganha um encanto especial, até.
Contam que viu o pai apenas duas vezes, embora todos vissem os dois, de cada vez que olhavam um. Contam que o disseram louco quando quis cantar algo de Leonard Cohen mas Hallelujah a essa bendita cover. Contam que conseguiu um disco perfeito, ao qual chamou Grace e o que nos contam, o que nos conta quem viveu, tem sempre mais valor.

Contarei eu, sempre, que a voz de Jeff Buckley parece hoje a voz de alguém que não queria morrer e quer voltar, como se o mundo mais triste, desesperado e desalentado fosse, ainda assim, o mais belo para ser apreciado.